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Pergunte a dez católicos o que é o purgatório e virão dez respostas: um lugar de fogo, uma antessala, um desconto de anos que se compra com orações, uma segunda chance para quem morreu mal.
A Igreja definiu muito menos do que quase todo mundo supõe, e o pouco que definiu é mais firme, e mais consolador, do que a versão popular. Este artigo separa três camadas: o que o magistério definiu, o que é teologia livre e o que é imaginação devocional. A separação é o que o próprio Concílio de Trento mandou fazer. O pano de fundo é a comunhão dos santos.
O que a Igreja definiu sobre o purgatório?
Duas coisas, e o decreto de 1563 que fecha o assunto diz as duas:
…que existe o purgatório e que as almas ali retidas são ajudadas pelos sufrágios dos fiéis, e sobretudo pelo aceitável sacrifício do altar.Concílio de Trento, Sessão XXV, Decreto sobre o Purgatório (1563)
A frase segue mandando os bispos pregarem essa doutrina “em toda parte”. E as afirmações são duas: existe uma purificação depois da morte e os defuntos são ajudados pelos sufrágios dos vivos. Nada sobre fogo, nada sobre lugar, nada sobre duração.
Florença já dissera o mesmo em 1439: as almas dos que morrem penitentes, antes de terem satisfeito com dignos frutos de penitência, “são purificadas depois da morte por penas purgatórias”, e para aliviá-las aproveitam “os sufrágios dos fiéis vivos”.
O Catecismo recolhe tudo assim:
Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu.Catecismo da Igreja Católica, n. 1030
O purgatório é uma segunda chance?
Não, e a frase acima já responde: “seguros da sua salvação eterna”.
Ao morrer, cada um recebe a retribuição eterna num juízo particular, “quer através duma purificação, quer para entrar imediatamente na felicidade do céu, quer para se condenar imediatamente para sempre” (n. 1022). A purificação é uma das três saídas do juízo, não uma sala de espera antes dele: quem está lá já foi julgado, e foi salvo. A oração pelos mortos não reverte sentença nenhuma; é ajuda a quem já chegou.
O purgatório é um inferno temporário?
Também não. O Catecismo chama a purificação final de “absolutamente distinta do castigo dos condenados” (n. 1031), e a diferença não é de duração, é de direção. O inferno é o estado de “auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus”, em que se permanece “por nossa própria livre escolha” (n. 1033): uma recusa. O purgatório é o oposto, o que acontece com quem disse sim e ainda não está pronto para o peso do que aceitou.
O purgatório está na Bíblia?
O texto mais citado é do Segundo Livro dos Macabeus, na tradução Matos Soares, que é a do aplicativo:
Santo e salutar pensamento este de orar pelos mortos. Eis porque ofereceu um sacrifício expiatório pelos defuntos, para que fossem livres dos seus pecados.2Mac 12, 46, tradução de Matos Soares
É preciso ser honesto com quem discorda: os Macabeus não estão na Bíblia protestante. Trento, em 1546, listou entre os livros sagrados “os dois de Macabeus, primeiro e segundo”; a Confissão de Westminster diz que os apócrifos “não são parte do cânon da Escritura”. Citar 2Mac a um protestante não resolve nada: o desacordo é anterior ao versículo.
Os outros dois textos pedem a mesma sobriedade. São Paulo diz que aquele cuja obra arder “sofrerá o prejuízo, mas será salvo, apesar disso, como por meio do fogo” (1Cor 3, 15). E quanto a Mateus 12, 32, repare como o Catecismo o cita: por São Gregório Magno, e como inferência. “Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas neste mundo e outras no mundo que há-de vir” (n. 1031). Nenhum desses versículos, lido sozinho, demonstra o purgatório, e o Catecismo não finge que demonstre: a doutrina se sustenta na Escritura lida dentro da Tradição, como os Padres sempre a leram.
Qual a diferença entre pena eterna e pena temporal?
É a distinção sem a qual o purgatório não faz sentido, e ela é anterior a ele.
O pecado grave priva-nos da comunhão com Deus e, portanto, torna-nos incapazes da vida eterna, cuja privação se chama «pena eterna» do pecado. Por outro lado, todo o pecado, mesmo venial, traz consigo um apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte, no estado que se chama Purgatório.Catecismo da Igreja Católica, n. 1472
Em seguida vem a frase que desarma a caricatura de um Deus cobrador: essas duas penas “não devem ser consideradas como uma espécie de vingança, infligida por Deus, do exterior, mas como algo decorrente da própria natureza do pecado”.
Perdoada a culpa, some a pena eterna. Fica o estrago. É esse resto que Trento definiu em 1547, ao condenar quem dissesse que, apagada a dívida da pena eterna, “não permanece nenhuma dívida de pena temporal a pagar, seja neste século, seja no futuro, no purgatório” (Sessão VI, cânone 30). A Igreja oferece um meio próprio de aplicar essa remissão aos defuntos, as indulgências, e o assunto pede artigo à parte.
Quanto tempo se fica no purgatório?
A Igreja nunca disse, e não é por modéstia: nenhum concílio, nenhum papa e nenhum catecismo jamais fixou medida. A pergunta é mal formulada, porque tempo é medida de coisas que mudam neste mundo, e uma alma separada do corpo já não está nesse relógio. “Tempo”, aqui, é analogia.
Daí o mal-entendido mais persistente da devoção brasileira. As orações dos livrinhos antigos vinham com números: “300 dias”, “sete anos e sete quarentenas”. Esses números nunca foram um calendário do além: mediam a penitência pública que se cumpria nesta vida, e Paulo VI os aboliu em 1967, ao reformar as indulgências. Como aquela contagem funcionava, e o que entrou no lugar dela, é assunto de outro artigo.
O que o Concílio de Trento proibiu de pregar sobre o purgatório?
Está no mesmo decreto de 1563, no parágrafo seguinte ao que mandou pregar a doutrina, e é o achado que organiza este artigo:
Junto do povo simples, porém, sejam afastadas das pregações populares as questões mais difíceis e sutis, que não contribuem para a edificação e das quais, na maior parte das vezes, não resulta nenhum aumento de piedade. Do mesmo modo, não permitam que se divulgue e se trate o que é incerto ou padece de aparência de falsidade. E aquilo que diz respeito a certa curiosidade ou superstição, ou que cheira a lucro torpe, proíbam como escândalo e tropeço dos fiéis.Concílio de Trento, Sessão XXV, Decreto sobre o Purgatório (1563)
O Concílio que respondia à Reforma tinha todo o incentivo para definir o máximo, e fez o contrário: definiu o essencial e proibiu de pregar o resto. A natureza das penas, a duração e a localização saíram do púlpito por ordem conciliar. E o “lucro torpe” é a própria Igreja nomeando, dentro de um decreto, o abuso que escandalizara o século XVI. Quem hoje descreve o purgatório com detalhes de cenário está fazendo exatamente o que Trento proibiu.
A Igreja inventou o purgatório na Idade Média?
Inventou a palavra, mais ou menos nesse período. Não inventou a coisa.
Nos textos mais antigos do magistério o que aparece não é o substantivo, é o adjetivo. O II Concílio de Lião, em 1274, diz que as almas são purificadas “por penas purgatórias ou catárticas, como nos explicou o irmão João”: o latim registra que foi preciso um intérprete para o termo grego, porque as duas Igrejas não tinham palavra comum. Florença, em 1439, mantém “penas purgatórias”; só em Trento o substantivo aparece firme nos textos conciliares. Em que década ele se fixou na linguagem dos teólogos é discussão de historiadores, não de doutrina.
Muito mais velha é a prática. Por volta de 211, Tertuliano descreve o costume corrente dos cristãos: Oblationes pro defunctis… annua die facimus, “fazemos oferendas pelos defuntos… no dia do aniversário” (De corona, 3). E por volta de 400, Santo Agostinho registra o pedido da mãe:
Ponde este corpo onde quiserdes. Que o cuidado dele não vos perturbe. Só isto vos peço: que vos lembreis de mim ao altar do Senhor, onde quer que estejais.Santo Agostinho, Confissões IX, 11, 27
Pouco depois, ele reza por ela: “agora suplico-te pelos pecados de minha mãe… perdoa-lhe também tu as suas dívidas” (IX, 13, 35).
Este é o argumento histórico mais forte, e o menos usado. Agostinho não tinha a palavra, tinha a prática, e a prática supõe o estado: ninguém reza pelos pecados de quem está condenado, nem de quem já está pleno em Deus. A Igreja rezava pelos mortos séculos antes de ter um nome para onde eles estavam.
Purgatório, limbo e almas penadas são a mesma coisa?
São três coisas diferentes.
Não é reencarnação. O Catecismo fecha a porta numa frase: “Não existe «reencarnação» depois da morte” (n. 1013).
Não tem relação com espíritos que voltam. Rezar por um defunto e tentar falar com ele são gestos opostos: um entrega, o outro convoca. O Catecismo rejeita expressamente “a evocação dos mortos” e “o recurso aos «médiuns»” (n. 2116).
Não é o limbo. Hipótese medieval sobre as crianças que morrem sem batismo, o limbo “nunca entrou nas definições dogmáticas do magistério” e “permanece uma hipótese teológica possível”, registrou a Comissão Teológica Internacional em 2007. O Catecismo nem o menciona.
O que ortodoxos e protestantes negam de fato?
Vale ouvir cada lado no texto dele.
Os ortodoxos rezam pelos mortos, e sempre rezaram. A Confissão de Dositeu, do Sínodo de Jerusalém de 1672, ensina que as almas dos que se arrependeram sem completar a satisfação são libertadas “pelas orações dos sacerdotes e pelas boas obras que os parentes de cada um fazem pelos seus defuntos”, e acrescenta: “não sabemos o tempo da sua libertação”. A substância é largamente comum; o que a teologia oriental recusa é o vocabulário latino, com a sua contabilidade de satisfação.
Entre os protestantes a divergência é mais funda, e não é uma só. Na tradição reformada, a Confissão de Westminster conclui, depois de falar do céu e do inferno: “Além destes dois lugares, para as almas separadas dos corpos, a Escritura não reconhece nenhum outro.” Somado ao cânone mais curto, isso explica por que a conversa trava antes de começar: discute-se o purgatório quando o que está em jogo é o que conta como prova.
Definido, teologia ou devoção: uma tabela para consultar
A coluna do meio não é uma lista de erros: é matéria livre, e quem a apresenta como dogma enfraquece o dogma.
| Definido pela Igreja | Teologia corrente, não definida | Imaginação sem respaldo |
|---|---|---|
| Há uma purificação depois da morte (Florença 1439; Trento, Sessão XXV) | O que são as “penas purgatórias” de que falam os concílios | Que o purgatório tenha geografia, andares ou paisagem |
| Os defuntos são ajudados pelos sufrágios dos vivos (Trento, Sessão XXV; CIC 1032) | Se o “fogo purificador” da Tradição é imagem ou mais que imagem (CIC 1031) | Que um número certo de orações liberte uma alma em data marcada |
| Quem está lá está salvo com certeza (CIC 1030) | Se a purificação é instantânea ou sucessiva | Que a alma ainda possa perder-se lá, ou mudar de destino |
| Perdoada a culpa, pode restar pena temporal (Trento, Sessão VI, cân. 30; CIC 1472) | Em que sentido se fala de “duração” fora do tempo | Que “300 dias de indulgência” fossem 300 dias a menos de purgatório |
| Não há reencarnação depois da morte (CIC 1013) | Como a purificação se liga à ressurreição final | Que os defuntos falem com os vivos por médiuns (CIC 2116) |
O que fazer com isto em novembro
A doutrina existe para sustentar um gesto simples: rezar pelos seus mortos, pelo nome.
Como a Igreja faz isso, o dia 2 de novembro e os costumes do mês estão em Finados: a oração pelos mortos. O que se disse aqui é o porquê: essa oração alcança alguém porque existe um estado em que ela ainda serve, e porque a morte não desfaz o batismo de ninguém.
No Sagrada Tradição, tudo o que este artigo cita pode ser conferido na fonte, sem depender de rede. O Catecismo inteiro está no aplicativo, e os números 1030 a 1032 e 1472 abrem pela busca. A Bíblia na tradução Matos Soares traz 2Mac 12 e 1Cor 3, e a Catena Aurea reúne os Padres sobre Mateus 12, o terceiro dos textos discutidos aqui. Entre as 208 orações está a Oração pelos fiéis defuntos, e a Liturgia Diária marca as duas datas de novembro.
O purgatório é a única doutrina católica sobre o além que é, do começo ao fim, uma boa notícia: Deus não desiste de terminar o que começou em alguém, e a família pode ajudar enquanto Ele termina.
Fontes (13)
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 1013 a 1037 Edição portuguesa da Santa Sé. Origem das citações sobre a purificação final e das notas de rodapé que remetem a Lião II, Florença e Trento. A grafia lusitana do original foi preservada (duma, há-de vir, auto-exclusão).
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 1471 a 1475 Onde está a distinção entre pena eterna e pena temporal, citada neste artigo.
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 2116 e 2117 A rejeição da evocação dos mortos e do recurso aos médiuns.
- Concílio de Trento, texto latino das sessões IV, VI e XXV Latim, no Wikisource latino. Fonte do Decreto sobre o Purgatório (Sessão XXV), do cânone 30 sobre a justificação (Sessão VI) e da lista dos livros canônicos (Sessão IV). As traduções deste artigo são nossas.
- The canons and decrees of the sacred and oecumenical Council of Trent, ed. e trad. J. Waterworth (Londres, Dolman, 1848), pp. 232 e 233 Edição do Hanover Historical Texts Project. Tradução inglesa usada para conferir a nossa versão do Decreto sobre o Purgatório.
- Concílio de Florença, decreto de união com os gregos (Laetentur caeli, 6 de julho de 1439) Tradução inglesa de Norman P. Tanner, Decrees of the Ecumenical Councils.
- Enchiridion Symbolorum, de Henrique Denzinger, texto latino Transcrição latina no Wikisource. Fonte do latim de DS 856 (Lião II, 1274) e DS 1304 (Florença, 1439), de onde vem a expressão poenis purgatoriis.
- Paulo VI, Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina (1 de janeiro de 1967) Os nn. 6, 7 e 12 e a norma 4, que aboliu a determinação por dias e anos. Tradução portuguesa da época, no site da Santa Sé.
- Santo Agostinho, Confissões, livro IX, texto latino da edição de J. J. O Donnell O pedido de Santa Mônica em IX, 11, 27 e a oração de Agostinho pelos pecados da mãe em IX, 13, 35. Traduções nossas.
- Tertuliano, De corona, 3, texto latino As oferendas anuais pelos defuntos, por volta do ano 211. Tradução nossa.
- Comissão Teológica Internacional, The Hope of Salvation for Infants Who Die Without Being Baptised (19 de abril de 2007) Documento em inglês no site da Santa Sé. A síntese introdutória diz que o limbo nunca entrou nas definições dogmáticas do magistério.
- Confissão de Dositeu, do Sínodo de Jerusalém (1672), decreto 18 Texto simbólico ortodoxo, em versão adaptada da tradução inglesa de J. Robertson (1899). Usado para não descrever a posição ortodoxa de fora.
- Confissão de Fé de Westminster (1646), capítulos 1.3 e 32.1 Texto reformado, na edição da Orthodox Presbyterian Church. Usado pela mesma razão.