Todo domingo, no fim do Credo, dizemos que cremos “na comunhão dos santos”. É uma das frases mais repetidas e menos explicadas da fé católica, e quase todo mundo a entende como uma espécie de amizade celeste entre pessoas muito boas.
Não é isso. E a distância entre o que a frase parece dizer e o que ela diz de fato é grande o bastante para mudar o modo como se reza.
Duas palavras, e a primeira não é o que você pensa
O Catecismo abre a explicação com uma precisão que resolve tudo:
A expressão “comunhão dos santos” tem, portanto, dois significados estreitamente ligados: “comunhão nas coisas santas, sancta”, e “comunhão entre as pessoas santas, sancti”.Catecismo da Igreja Católica, n. 948
Em latim, sanctorum pode ser genitivo de sancta, coisas santas, ou de sancti, pessoas santas. As duas leituras estão certas, e a ordem importa: a primeira é a das coisas.
Comunhão nas coisas santas quer dizer comunhão nos bens que Deus dá: a fé, os sacramentos, os carismas, os bens materiais partilhados, a caridade. E entre esses bens, um antes de todos. O Catecismo diz que a expressão designa “em primeiro lugar as coisas santas e, antes de mais, a Eucaristia, pela qual é representada e se realiza a unidade dos fiéis que constituem um só Corpo em Cristo” (n. 960).
Ou seja: a comunhão dos santos não começa com os santos. Começa com a Comunhão.
A comunhão dos santos é a Igreja
O segundo sentido, o das pessoas, é o que a linguagem comum reteve, e o Catecismo o define de um modo que surpreende quem espera uma elite:
A comunhão dos santos é precisamente a Igreja.Catecismo da Igreja Católica, n. 946
“Santos”, aqui, não são apenas os canonizados. São todos os batizados, no sentido em que São Paulo chama de santos os cristãos de Corinto e de Roma, gente comum e com problemas. Somos nós.
E daí vem a lógica que sustenta o resto: se somos um só corpo, então “o bem duns é comunicado aos outros”, como o Catecismo cita no número 947. Numa comunhão, nada do que é bom fica privado.
Os três estados
A Igreja não é só a parte que se vê. O Concílio Vaticano II descreve três situações simultâneas, e o Catecismo as recolhe no número 954:
| Estado | Quem | Onde |
|---|---|---|
| Peregrina | os que ainda caminham na terra | aqui |
| Purificando-se | os que morreram e estão sendo purificados | no purgatório |
| Gloriosa | os que contemplam a Deus | no céu |
São três estados de uma única Igreja, não três igrejas. O Concílio é explícito ao dizer que todos “comungamos, embora em modo e grau diversos, no mesmo amor de Deus e do próximo”, e que todos entoam “o mesmo hino de louvor” (Lumen Gentium, n. 49).
A morte não interrompe nada
Aqui está a afirmação central, e ela é mais forte do que a devoção popular costuma supor:
E assim, de modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo, mas antes, segundo a constante fé da Igreja, é reforçada pela comunicação dos bens espirituais.Lumen Gentium, n. 49
Leia devagar as duas partes. A união não se interrompe, e mais: ela é reforçada. A morte não é uma parede que separa os vivos dos mortos dentro da Igreja. É uma mudança de estado dentro da mesma família.
Toda a prática católica em torno dos mortos e dos santos decorre daí. Não são costumes acrescentados por devoção: são a consequência prática de um artigo do Credo.
Por isso pedimos aos santos que rezem
Se a comunhão continua, quem está diante de Deus continua podendo interceder. O Catecismo diz que os bem-aventurados “não cessam de interceder a nosso favor, diante do Pai”, e que o fazem “graças ao Mediador único entre Deus e os homens, Jesus Cristo” (n. 956).
Essa última frase responde à objeção mais comum, e é bom que ela venha do próprio Catecismo. Pedir a intercessão de um santo não cria um segundo mediador. É o mesmo que pedir a um amigo que reze por você, com a diferença de que esse amigo já chegou.
Vale lembrar também que a veneração dos santos não é adoração, e a distinção tem nomes próprios e séculos de precisão: é assunto de outro artigo.
E há uma razão para venerá-los que não é a de pedir favores. O Catecismo diz que não é só pelo exemplo que veneramos a memória dos bem-aventurados, mas “ainda mais para que a união de toda a Igreja no Espírito aumente com o exercício da caridade fraterna” (n. 957). Cultuar os santos aproxima quem está aqui, não só quem está lá.
E por isso rezamos pelos mortos
O outro lado da mesma comunhão é o que a Igreja faz desde o começo:
Reconhecendo claramente esta comunicação de todo o Corpo místico de Cristo, a Igreja dos que ainda peregrinam venerou, com muita piedade, desde os primeiros tempos do cristianismo, a memória dos defuntos.Catecismo da Igreja Católica, n. 958
O fundamento bíblico que tanto o Concílio quanto o Catecismo citam é do Segundo Livro dos Macabeus, onde Judas Macabeu manda oferecer sacrifícios pelos soldados mortos, “porque é coisa santa e salutar rezar pelos mortos, para que sejam absolvidos de seus pecados” (2Mac 12,46).
A prática é anterior a Cristo, portanto, e a Igreja a recebeu e a manteve. Rezar por um defunto não é um gesto simbólico de consolo para quem ficou. É um ato que a Igreja acredita fazer diferença para quem partiu, e é por isso que existem missas de sétimo dia, aniversários de falecimento e o mês de novembro inteiro.
O que isso muda em novembro
Duas datas seguidas, e agora elas fazem sentido juntas.
Em 1º de novembro, Todos os Santos, a Igreja celebra a parte gloriosa: os que já chegaram, incluindo a multidão imensa que nunca foi canonizada e cujos nomes só Deus sabe.
Em 2 de novembro, Finados, ela reza pela parte que se purifica: os fiéis defuntos.
Não são uma festa alegre seguida de um dia triste. São dois olhares sobre a mesma comunhão, em dias consecutivos e de propósito. O primeiro olha para onde a família já chegou; o segundo, para quem ainda está a caminho, e faz por eles o que uma família faz.
Como viver isso
Três coisas concretas, e nenhuma exige nada de extraordinário.
Reze por seus mortos pelo nome. Não “pelas almas do purgatório” em geral, mas pelo seu pai, pela sua avó, pelo amigo que se foi cedo. A comunhão é entre pessoas, e pessoas têm nome.
Peça a intercessão de um santo de que você goste, e conheça a vida dele. O Catecismo lembra que os santos “nos ensinam um caminho seguro”. Um exemplo que se conhece de perto ensina mais que uma lista de nomes.
Comungue bem. Se a comunhão dos santos é, antes de tudo, comunhão nas coisas santas, e antes de tudo na Eucaristia, então o lugar onde ela mais acontece não é o cemitério nem o oratório de casa. É o altar.
No Sagrada Tradição, as três coisas têm onde se apoiar, e sem depender de rede: são 554 santos com biografia, data e história, para conhecer aquele de quem se pede; a Oração pelos fiéis defuntos está entre as 208 orações; e o Catecismo inteiro traz os números 946 a 962 citados aqui, para conferir cada afirmação na fonte. A Liturgia Diária marca as duas datas de novembro quando elas chegarem.
Uma última observação, porque ela costuma passar despercebida. O Credo põe a comunhão dos santos logo depois da Igreja e logo antes do perdão dos pecados, da ressurreição da carne e da vida eterna. Não é acidente: é a dobradiça entre o que a Igreja é agora e o que ela será. Quem diz essa frase no domingo está afirmando que a morte não desfaz o batismo de ninguém.
Fontes
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 946 a 962 Edição portuguesa no site da Santa Sé. Origem das citações e da distinção entre sancta e sancti.
- Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II (21 de novembro de 1964) Os nn. 49 e 50 tratam da união entre a Igreja da terra, a que se purifica e a do céu. É o texto que o Catecismo cita nesta matéria.