O Catecismo da Igreja Católica é o livro que mais católico tem em casa e menos católico terminou. Quase sempre pela mesma razão: quem o abre na página um e tenta ler como se lê um romance chega ao capítulo da Revelação e desiste.
O engraçado é que o próprio livro avisa como deve ser lido. Está no Prólogo, nos números 11 a 22, e é a parte que ninguém lê.
O que ele é
É a exposição de referência da fé católica, promulgada por São João Paulo II em 11 de outubro de 1992, trinta anos exatos depois da abertura do Concílio Vaticano II.
A definição oficial está na constituição apostólica que o promulgou:
Vejo-o como um instrumento válido e legítimo a serviço da comunhão eclesial e como uma norma segura para o ensino da fé.Fidei Depositum
Duas palavras dessa frase merecem atenção. Norma segura quer dizer que quem ensina a partir dele não erra: é o critério pelo qual se mede um catecismo local, uma apostila de catequese, uma pregação. E para o ensino da fé delimita a função: não é um código de leis nem um manual de casuística, é o mapa do que a Igreja crê.
A quem ele se dirige (e não é a você, em primeiro lugar)
Esta é a informação que muda tudo, e está no número 12 do Prólogo:
Este Catecismo destina-se principalmente aos responsáveis pela catequese, que são em primeiro lugar os bispos. […] E, através dos bispos, dirige-se aos redactores de catecismos, aos sacerdotes e aos catequistas. Será também uma leitura útil para todos os outros fiéis cristãos.Catecismo da Igreja Católica, n. 12
Repare na ordem: bispos, redatores de catecismos, sacerdotes, catequistas, e só então “todos os outros fiéis”. O leitor comum é o quinto da fila, e o texto foi escrito com o quarto em mente.
Isso não é um convite a fechar o livro. É a explicação de por que ele parece denso: foi feito para ser fonte de quem ensina, não leitura de cabeceira. Quem espera dele o tom de um livro devocional se frustra, e a frustração não é culpa do leitor.
Pelo mesmo motivo, o Catecismo não pretende substituir nada. A Fidei Depositum diz com todas as letras que ele “não se destina a substituir os Catecismos locais devidamente aprovados pelas autoridades eclesiásticas”, mas a encorajar e ajudar a redação deles, respeitando “as diversas situações e culturas”.
As quatro partes
O plano do livro é antigo. Ele retoma a ordem do Catecismo Romano, o de São Pio V, e articula tudo em torno de quatro pilares, como diz o número 13 do Prólogo: a profissão da fé, os sacramentos da fé, a vida da fé e a oração do crente.
| Parte | Do que trata | Eixo |
|---|---|---|
| I | A profissão da fé | o Credo |
| II | A celebração do mistério cristão | os sacramentos e a liturgia |
| III | A vida em Cristo | os mandamentos |
| IV | A oração cristã | o Pai Nosso |
A lógica é uma progressão, e ela responde a quatro perguntas nesta ordem: em que creio, como celebro, como vivo, como rezo. Não é arrumação de arquivista: é o caminho de uma vida cristã, do que se recebe ao que se responde.
São 2.865 parágrafos numerados, distribuídos em quatro partes, oito seções, vinte capítulos e sessenta e cinco artigos.
As instruções de uso, escritas pelo próprio livro
Os números 18 a 22 do Prólogo são, na prática, o manual. Vale lê-los antes de qualquer outra coisa.
Leia-o como um todo, mas consulte-o por partes. O número 18 diz que o Catecismo “deve ser lido como um todo”, e imediatamente explica como fazer isso sem lê-lo em linha reta: as notas remissivas à margem, aqueles números pequenos ao lado do texto, apontam para outros parágrafos que tratam do mesmo assunto, e o índice analítico no fim do volume permite “encarar cada tema na sua ligação com o conjunto da fé”.
Em outras palavras: o Catecismo é uma rede, não uma escada. Entrar por um assunto e seguir as remissões é o modo previsto de usá-lo, não um atalho.
A letra miúda não é nota de rodapé. O número 20 explica que os trechos em letra menor são anotações históricas ou apologéticas, ou exposições doutrinais complementares. E o número 21 diz que as citações em letra miúda, dos Padres, da liturgia, do Magistério e da hagiografia, foram escolhidas muitas vezes “a pensar num emprego directamente catequético”. Ou seja: são o que se leva para a sala de aula, não o que se pula.
As referências bíblicas são para abrir. O número 19 avisa que a Escritura muitas vezes aparece só como referência, com um “cf.”, e recomenda recorrer aos próprios textos. Quem lê o Catecismo com a Bíblia ao lado lê outro livro.
Os resumos existem e são de propósito. No fim de cada unidade temática vem uma série de textos breves sob o título RESUMINDO, e o número 22 explica a razão: dar à catequese local “fórmulas sintéticas e fáceis de decorar”. São 81 blocos desses. Para quem tem pouco tempo, é por eles que se começa.
Como citar sem errar
Cita-se por número de parágrafo, nunca por página. A numeração é a mesma em todas as edições e em todas as línguas, então “CIC 1324” leva qualquer leitor exatamente ao mesmo lugar, e “página 340” não leva a lugar nenhum.
A abreviação usual em português é CIC, seguida do número: CIC 1324. Alguns autores usam CCC, do latim Catechismus Catholicae Ecclesiae, ou CEC. Todas apontam para o mesmo texto.
O Catecismo pode mudar?
Pode, e mudou.
A edição promulgada em 1992 recebeu, em 1997, uma edição típica latina com correções. E em 2018 o Papa Francisco aprovou uma nova redação do número 2267, sobre a pena de morte. O parágrafo hoje começa reconhecendo que “durante muito tempo, considerou-se o recurso à pena de morte por parte da autoridade legítima, depois de um processo regular, como uma resposta adequada à gravidade de alguns delitos”, e a partir daí expõe o ensinamento atual.
O ponto não é a polêmica. O ponto é prático: verifique sempre se a edição que você consulta está atualizada. Um Catecismo impresso antes de 2018 traz, naquele número, um texto que já não é o vigente.
Por onde começar
Se você nunca usou o Catecismo, quatro caminhos funcionam melhor que a leitura linear:
- Pela pergunta. Você quer saber o que a Igreja ensina sobre uma coisa específica. Vá ao índice analítico, entre pelo parágrafo, siga as remissões da margem.
- Pelos RESUMINDO. Percorra os 81 blocos de resumo antes de encarar o texto corrido. Em uma tarde você tem o esqueleto inteiro.
- Pelo Credo. Se quiser seguir a ordem do livro, comece pela Primeira Parte e leia-a inteira antes de saltar. Ela é o alicerce das outras três.
- Pela liturgia do dia. Este é o caminho mais subestimado. Leia as leituras da Missa e, a partir delas, vá aos parágrafos que tratam do mesmo assunto. A doutrina deixa de ser abstrata quando chega pela Palavra do dia.
O último caminho é o que o Sagrada Tradição automatiza. O Catecismo inteiro está no aplicativo, os 2.865 parágrafos, com a estrutura completa das quatro partes, as 3.056 notas e os 81 resumos, tudo com busca e sem depender de rede. E as leituras da Liturgia Diária trazem, em cada dia, os parágrafos do Catecismo que se ligam àquele evangelho e àquela primeira leitura: são mais de quatro mil ligações mapeadas uma a uma. O parágrafo 2267 lá está na redação de 2018.
Vale uma última observação sobre o tamanho. Duas mil oitocentas e sessenta e cinco entradas assustam, mas o Catecismo não é longo para o que faz: ele resume vinte séculos. Lido como rede, e não como maratona, ele deixa de ser um monumento na estante e vira o que a Fidei Depositum queria que fosse, uma norma segura para quem precisa dar razão da própria esperança.
Fontes
- Constituição Apostólica Fidei Depositum, de São João Paulo II (11 de outubro de 1992) O documento que promulgou o Catecismo. Origem das citações sobre a natureza dele e sobre as quatro partes.
- Catecismo da Igreja Católica, Prólogo (nn. 1 a 25) Edição portuguesa no site da Santa Sé. Os nn. 11 a 22 são as instruções de uso citadas neste artigo, escritas pelo próprio Catecismo.