Neste momento, em algum fuso horário, alguém está rezando as Vésperas. Daqui a algumas horas, do outro lado do mundo, outra pessoa começará as Laudes. A Liturgia das Horas não para nunca, e é assim há séculos.

É a oração oficial da Igreja, distribuída ao longo do dia. E é, provavelmente, o maior tesouro católico que a maioria dos católicos nunca abriu.

O que é

Também chamada de Ofício Divino ou, antigamente, de breviário, é um conjunto de orações formado sobretudo por salmos, distribuídas em horas fixas do dia, que o clero e os religiosos rezam por obrigação e os leigos são convidados a rezar.

O Concílio Vaticano II define a sua finalidade em uma frase: o Ofício “destina-se a consagrar, pelo louvor a Deus, o curso diurno e nocturno do tempo” (Sacrosanctum Concilium, n. 84).

Consagrar o tempo. Não é uma oração que se encaixa no dia: é uma oração que marca o dia, como as batidas de um relógio.

De quem é essa oração

Aqui está o ponto que muda a compreensão de tudo o mais. Quando o Ofício é rezado, quem está rezando não é apenas quem segura o livro:

Então é verdadeiramente a voz da Esposa que fala com o Esposo ou, melhor, a oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai.Sacrosanctum Concilium, n. 84

O Concílio começa o capítulo lembrando que Cristo, ao assumir a natureza humana, “trouxe a este exílio da terra aquele hino que se canta por toda a eternidade na celeste mansão” e “une a si toda a humanidade” nesse cântico (n. 83).

A consequência prática é grande. Rezar o Ofício não é uma devoção particular a mais, como fazer uma novena. É entrar numa oração que já está acontecendo, e que é da Igreja inteira. Quem reza as Vésperas sozinho, num quarto, está rezando com o mundo.

As horas do dia

Depois da reforma do Concílio, a estrutura ficou assim:

HoraQuandoO que é
Ofício das Leiturasa qualquer horasalmos e duas leituras longas, uma bíblica e uma dos Padres ou dos santos
Laudesao amanhecera oração da manhã, uma das duas principais
Hora médiameio da manhã, meio-dia ou meio da tardeTércia, Sexta ou Noa, breves
Vésperasao entardecera oração da tarde, a outra principal
Completasantes de dormira última do dia, curta, de entrega

O nome das horas menores vem da contagem romana: Tércia é a terceira hora depois do amanhecer, por volta das nove; Sexta, a sexta, por volta do meio-dia; Noa, a nona, por volta das três da tarde. É a mesma contagem que aparece nos Evangelhos quando dizem que Jesus foi crucificado à hora terceira e morreu por volta da nona.

Os dois polos

Se você só puder rezar duas horas na vida, o Concílio já escolheu quais:

As Laudes, oração da manhã, e as Vésperas, oração da noite, tidas como os dois polos do Ofício quotidiano pela tradição venerável da Igreja universal, devem considerar-se as principais Horas e como tais celebrar-se.Sacrosanctum Concilium, n. 89

Manhã e tarde. O dia que se abre entregue a Deus e o dia que se fecha devolvido a Deus. Tudo o mais é acréscimo, e acréscimo bom, mas o eixo são esses dois.

O que o Concílio mudou

O mesmo número 89 traz a reforma inteira em cinco linhas, e vale conhecê-la porque explica por que um breviário de 1950 e um de hoje são livros diferentes:

  • Laudes e Vésperas passaram a ser reconhecidas como as horas principais;
  • Completas foram adaptadas para condizer com o fim do dia;
  • Matinas, que eram o ofício da noite, ganharam a possibilidade de ser rezadas a qualquer hora e viraram o atual Ofício das Leituras, com menos salmos e leituras mais longas;
  • a Hora de Prima foi suprimida;
  • Tércia, Sexta e Noa continuam as três no coro, mas fora dele se reza apenas uma, a que melhor corresponder à hora do dia.

E houve uma mudança que se sente todo dia: os salmos deixaram de ser distribuídos em uma semana. O número 91 pede que se espalhem “por mais longo espaço de tempo”, e a reforma acabou por organizá-los num ciclo de quatro semanas.

A razão é pastoral e o Concílio a diz sem rodeios no número 88: as horas devem corresponder, na medida do possível, ao seu tempo real do dia, “tendo presentes também as condições da vida hodierna”. Um saltério inteiro por semana era peso de mosteiro, não de quem trabalha.

O que tem dentro de uma hora

Toda hora segue mais ou menos o mesmo desenho:

  1. Um versículo de abertura, quase sempre “Deus, vinde em meu auxílio”.
  2. Um hino.
  3. Salmos com antífonas, o corpo da oração.
  4. Uma leitura breve da Escritura.
  5. O cântico evangélico, que muda conforme a hora.
  6. As preces e o Pai Nosso.
  7. A oração conclusiva do dia.

Os cânticos evangélicos merecem atenção, porque são o ponto alto de cada hora e todos os três vêm do Evangelho de Lucas. Nas Laudes, o Benedictus, o cântico de Zacarias no nascimento de João Batista. Nas Vésperas, o Magnificat, o cântico de Maria. Nas Completas, o Nunc dimittis, o cântico do velho Simeão segurando o Menino no templo, que é a oração perfeita para quem vai dormir: agora podes deixar ir o teu servo em paz.

Nas Vésperas, as antífonas que emolduram o Magnificat mudam todos os dias, e nos sete dias antes do Natal elas se tornam as mais famosas do ano, as Ó Antífonas.

Quem é obrigado, e quem é convidado

Bispos, presbíteros e diáconos permanentes têm obrigação de rezar o Ofício, e os religiosos e religiosas o rezam segundo as suas constituições. É a oração pela qual a Igreja, através deles, louva a Deus em nome de todos.

Os leigos não têm essa obrigação, mas o Concílio faz questão de convidá-los, e num parágrafo dirigido aos párocos:

Cuidem os pastores de almas que nos domingos e festas mais solenes se celebrem em comum na igreja as Horas principais, especialmente Vésperas. Recomenda-se também aos leigos que recitem o Ofício divino, quer juntamente com os sacerdotes, quer uns com os outros, ou mesmo particularmente.Sacrosanctum Concilium, n. 100

“Ou mesmo particularmente.” Sozinho, em casa, no ônibus. Vale.

Como começar sem breviário

O breviário completo tem quatro volumes e uma quantidade de fitas que assusta. Não comece por aí. Três caminhos funcionam melhor:

Comece por uma hora só, e que seja Vésperas. É a hora mais bonita, cai num horário que a maioria das pessoas consegue cumprir, e traz o Magnificat todos os dias. Um mês rezando só Vésperas vale mais que uma semana tentando rezar cinco horas.

Ou comece pelas Completas. São as mais curtas, as mais fáceis de decorar e as que melhor se encaixam num dia cheio. Terminam sempre com uma antífona a Nossa Senhora, e a última coisa que se diz é um pedido de noite tranquila.

Não compre o breviário de quatro volumes de saída. Há edições de um volume só, com Laudes, Vésperas e Completas, feitas exatamente para leigos. Comece por uma delas e veja se o hábito pega antes de investir.

E uma observação sobre o essencial: rezar o Ofício não é lê-lo, é rezá-lo devagar. O número 90 pede aos que o rezam que “o espírito corresponda às palavras”, e recomenda que se busque instrução bíblica, “especialmente quanto aos salmos”. Salmo lido às pressas é texto; salmo rezado com calma é oração.

O que o aplicativo faz, e o que não faz

Vale ser direto: o Sagrada Tradição não é um breviário, e não pretende ser. Um Ofício completo é outro livro, com outra estrutura e outro ciclo, e fazê-lo pela metade seria pior que não fazê-lo.

O que o aplicativo traz é o que ajuda a chegar lá. Os três cânticos evangélicos estão entre as suas 208 orações, com texto em português e em latim: o Benedictus das Laudes, o Magnificat das Vésperas e o Nunc dimittis das Completas. Estão também o Te Deum, que coroa o Ofício das Leituras nas solenidades, e o Veni Creator. E há o Plano Espiritual, para quem quiser construir a regra de vida em que uma oração de horário fixo se sustenta.

Para o outro lado da liturgia, o das leituras da Missa de cada dia, há a Liturgia Diária, que também explica o grau e a cor de cada celebração.

Uma última imagem, para quem ficou tentado. Enquanto você dorme, do outro lado do planeta alguém abre o mesmo livro, nos mesmos salmos, e continua a oração que você deixou. É esse o sentido daquele hino que, segundo o Concílio, já se canta por toda a eternidade: a Igreja apenas se juntou a ele, e não parou mais.

Fontes

  1. Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II (4 de dezembro de 1963) O capítulo IV, nn. 83 a 101, trata inteiro do Ofício Divino. Todas as citações em destaque deste artigo vêm dele.
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