Quem frequenta a Missa percebe: ao longo do ano, as vestes do sacerdote e os paramentos do altar mudam de cor. Não se trata de gosto ou estação. Cada cor é um sinal: uma linguagem que a Igreja usa para nos conduzir, dia após dia, pelos mistérios da salvação.
O ano da Igreja não começa em janeiro
Antes das cores, convém situar o calendário que elas vestem. O ano litúrgico começa no primeiro domingo do Advento, quatro domingos antes do Natal, e termina na solenidade de Cristo Rei, no fim do Tempo Comum. Entre um ponto e outro, a Igreja percorre a vida inteira de Cristo: a espera, o nascimento, a manifestação, o jejum, a paixão, a ressurreição, a ascensão e o dom do Espírito.
Esse percurso se organiza em tempos: Advento, Natal, Quaresma, Tríduo Pascal, Páscoa e Tempo Comum, este último dividido em dois blocos, um entre o Natal e a Quaresma, outro entre Pentecostes e o Advento seguinte. As leituras dos domingos giram em três ciclos (A, B e C) e as dos dias de semana em dois (I e II), de modo que quem acompanha a liturgia atravessa uma parte substancial da Escritura sem precisar escolher nada.
As cores marcam esse mapa. Elas dizem, sem palavras, em que ponto do caminho estamos.
O verde do caminho
Durante o Tempo Comum, a Igreja se veste de verde. É a cor da esperança e do crescimento, a cor dos dias em que caminhamos, semana após semana, amadurecendo na fé. A maior parte do ano é verde, porque a maior parte da vida cristã é feita de fidelidade cotidiana.
O nome engana um pouco: “comum” aqui não quer dizer banal, mas contado, ordenado, numerado em semanas, até trinta e quatro delas. São os dias em que nada de extraordinário acontece no calendário e tudo de decisivo acontece na alma. Um tempo longo, de propósito.
O roxo da espera
No Advento e na Quaresma, o roxo toma o lugar do verde. É a cor da penitência, da conversão e da espera vigilante. Ela nos prepara para as duas grandes festas do ano: o Natal e a Páscoa. O roxo pede silêncio e exame de consciência.
As duas esperas, porém, têm sabores distintos. O Advento é roxo de expectativa serena, de quem aguarda uma vinda; a Quaresma é roxo de conversão, de quem precisa mudar antes de chegar lá. O roxo aparece ainda nas exéquias e nas Missas pelos fiéis defuntos, onde exprime a oração pela purificação de quem partiu.
As cores litúrgicas educam o olhar e, por ele, educam a alma. Vê-las é já entrar no mistério.Sobre o sentido dos sinais
O branco da luz
O branco é a cor da luz, da alegria e da glória. Brilha no tempo do Natal e no tempo pascal, nas festas do Senhor que não são da Paixão, nas celebrações da Virgem Maria, dos anjos e dos santos que não foram mártires. É a cor do batismo e a cor com que a Igreja acompanha os seus filhos na esperança da ressurreição.
Quando um santo do dia aparece de branco no calendário, a cor já conta parte da sua história: viveu a fé até o fim, mas não a selou com o sangue.
O vermelho do fogo e do sangue
O vermelho carrega dois sentidos que a liturgia mantém juntos. É o sangue derramado e é o fogo do Espírito.
Por isso ele veste o Domingo de Ramos e a Sexta-feira Santa, quando se celebra a Paixão do Senhor; veste Pentecostes, quando o Espírito desce em línguas de fogo; veste as festas dos apóstolos e dos evangelistas; e veste a memória de cada mártir, que respondeu ao fogo recebido com o sangue oferecido. É também a cor do sacramento da Confirmação, pelo mesmo motivo.
O rosa que se acende duas vezes
Há ainda o rosa, raro e delicado, que aparece apenas duas vezes ao ano: no terceiro domingo do Advento e no quarto da Quaresma. É o roxo que clareia, sinal de que a alegria já se aproxima no meio da espera.
Esses dois domingos têm nome próprio, tirado da primeira palavra da antífona de entrada em latim. O do Advento é o Gaudete, “alegrai-vos”, do apelo de São Paulo aos Filipenses. O da Quaresma é o Laetare, “alegra-te, Jerusalém”, tomado de Isaías. A Igreja interrompe por um dia a austeridade para lembrar aonde a penitência conduz.
Dourado, preto e o que a norma diz
A regra que rege tudo isso está na Instrução Geral do Missal Romano, no número 346, e ela é menos rígida do que se imagina.
O dourado (ou a prata) pode substituir o branco, o vermelho ou o verde em celebrações de especial solenidade. O preto continua permitido nas Missas pelos defuntos, embora em muitos lugares tenha cedido lugar ao roxo. Em alguns países, por indulto antigo, o azul é usado nas celebrações da Imaculada Conceição, exceção que sobrevive em regiões de tradição hispânica.
A norma também prevê o bom senso: em igrejas pobres, admite-se um número menor de paramentos, e nas celebrações mais solenes pode-se usar o mais nobre que se tenha, ainda que não seja o da cor do dia. A liturgia pede sinais, não luxo.
De onde vêm essas cores
Nem sempre foi assim. Nos primeiros séculos, a cor das vestes não era regulada: usava-se o branco das roupas de festa, e o resto variava de igreja para igreja. A uniformização foi lenta.
No fim do século XII, um cardeal romano que viria a ser o Papa Inocêncio III descreveu num tratado sobre o mistério do altar o uso já corrente em Roma, com o branco, o vermelho, o verde e o preto distribuídos pelos tempos do ano. Essa descrição virou referência. Com o Missal promulgado por São Pio V, em 1570, o esquema se fixou para todo o rito romano, e é dele que descende, com ajustes, o que se vê hoje no altar.
Vale reter o que essa história ensina: a linguagem das cores não caiu pronta do céu nem foi invenção de um comitê. Cresceu do uso, foi depurada pelo tempo e enfim reconhecida. É assim que a liturgia costuma fazer as coisas.
Uma catequese silenciosa
Seguir as cores do ano litúrgico é deixar-se conduzir pela Igreja, que não ensina apenas com palavras, mas também com sinais. Quem repara na cor do dia acaba, quase sem perceber, sabendo em que tempo está, o que a Igreja celebra e o que se espera do seu coração naquela semana.
No Sagrada Tradição, cada dia traz a sua cor e o seu tempo. A liturgia diária mostra o tempo litúrgico, o grau da celebração, a cor do dia e o santo celebrado, para que, mesmo longe do altar, você caminhe no mesmo ritmo da Igreja inteira. Se quiser dar um passo além e ouvir como os Padres liam o Evangelho de cada um desses dias, a Catena Aurea é o caminho natural.