De todos os costumes do Advento, a coroa é o que mais entrou nas casas. Também é o mais cercado de explicações que ninguém sabe de onde vieram. Vale separar o que a Igreja diz, o que a tradição guarda e o que é invenção recente, porque as três coisas circulam misturadas.
O que é a coroa do Advento
É um círculo de ramos verdes com quatro velas, uma acesa a cada semana do Advento, de modo que a luz cresça à medida que o Natal se aproxima.
Cada elemento carrega um sentido, e nenhum deles é arbitrário:
- O círculo, sem começo nem fim, evoca a eternidade de Deus.
- Os ramos perenes, que não perdem a cor no inverno, evocam a vida que não morre.
- As quatro velas marcam as quatro semanas da espera.
- A luz que cresce é o próprio Cristo, que se aproxima.
É uma devoção doméstica, não um rito da Missa. A coroa não tem lugar prescrito na liturgia, embora muitas paróquias a coloquem perto do altar e a Igreja tenha, no seu livro de bênçãos, uma fórmula própria para abençoá-la.
Por que três velas roxas e uma rosa
As cores da coroa não são decoração: acompanham os paramentos do altar.
O roxo veste o Advento inteiro, como cor da espera vigilante e da conversão. O rosa aparece uma única vez, no terceiro domingo, chamado Gaudete, do latim “alegrai-vos”, primeira palavra da antífona de entrada daquele dia. É o roxo que clareia, sinal de que a espera já está perto do fim.
Por isso a proporção é três para um, e por isso a vela rosa é a terceira a ser acesa, nunca outra. Quem monta a coroa com quatro velas roxas não erra em nada essencial, mas perde o sinal do Gaudete. Quem monta com uma branca no meio está pensando na vela do Natal, que é outra coisa (veja adiante).
Se quiser entender a lógica das cores no ano inteiro, escrevemos um artigo só sobre isso.
O que cada vela significa
Aqui é onde convém ser honesto, porque quase todo texto sobre o assunto afirma com segurança aquilo que é apenas costume.
O que é firme: as velas marcam as quatro semanas, e a luz crescente representa a vinda de Cristo. Isso é o sentido do sinal, e é sólido.
O que é piedade popular: os nomes que se dão a cada vela e as virtudes associadas a elas. As séries mais difundidas são estas:
| Semana | Nome mais comum | Virtude associada |
|---|---|---|
| 1ª | vela da profecia, ou de Isaías | esperança |
| 2ª | vela de Belém | paz |
| 3ª (rosa) | vela dos pastores | alegria |
| 4ª | vela dos anjos | amor |
Essas séries variam de país para país e de paróquia para paróquia. Não há norma da Igreja fixando esses nomes. Usá-los é legítimo, ajuda muito a catequese das crianças e dá matéria para a oração de cada semana. Apresentá-los como doutrina, não. A diferença parece pequena e não é: um costume bom não precisa se disfarçar de dogma para valer.
De onde veio o costume
A origem mais citada é alemã e recente. O pastor luterano Johann Hinrich Wichern, em Hamburgo, por volta de 1839, teria montado numa casa de acolhimento uma roda de madeira com velas, para que as crianças pudessem contar quantos dias faltavam para o Natal. Na versão original havia muitas velas, uma para cada dia, com as maiores marcando os domingos.
O costume simplificou-se para quatro velas, passou às famílias católicas alemãs no início do século XX e daí ao mundo inteiro. É bom saber disso por dois motivos: porque é honesto, e porque mostra que a Igreja sabe reconhecer o que é bom venha de onde vier, sem precisar inventar uma origem antiga para justificar.
Como montar a sua
Nada aqui exige gasto nem habilidade.
A base. Ramos verdes naturais duram bem umas duas semanas se borrifados com água a cada dois ou três dias. Pinheiro, cipreste e alecrim funcionam. Se não houver como repor, ramos artificiais servem: o sinal está no círculo verde, não no perfume.
As velas. Três roxas e uma rosa, do tamanho que couber na sua mesa. Velas de 20 a 25 cm duram as quatro semanas se acesas por poucos minutos de cada vez.
O lugar. A mesa da refeição é o melhor, porque é onde a família se junta sem precisar combinar. Um cantinho de oração serve igualmente.
A bênção. Se puder, peça ao pároco que abençoe a coroa, ou use a fórmula que o livro de bênçãos da Igreja traz para isso. Não é obrigatório, e a falta dela não invalida nada.
Como rezar a cada domingo
O ritmo é simples e cabe em três minutos. No primeiro domingo acende-se uma vela; no segundo, duas; no terceiro, três, incluindo a rosa; no quarto, as quatro.
Uma ordem que funciona bem em casa:
- Alguém acende a vela da semana, de preferência a criança mais nova.
- Lê-se o Evangelho do dia, ou apenas um trecho curto. A liturgia diária traz a leitura de cada domingo.
- Diz-se uma oração breve, pedindo o que aquela semana sugere: esperança, paz, alegria, amor, se você usa essa série.
- Reza-se um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
- Apaga-se a vela ao fim, para que dure o tempo todo.
A tentação, sempre, é fazer disso um momento longo e solene que a família não sustenta na terceira semana. O contrário funciona melhor: curto, repetido, no mesmo horário. É o mesmo princípio de uma regra de vida que dura.
Cinco erros comuns
Acender todas as velas desde o começo. Anula o sinal inteiro, que é justamente a luz que cresce.
Trocar a vela rosa por outra cor. Perde-se o Gaudete, que é o único respiro do tempo.
Montar a coroa junto com a árvore de Natal completa, em novembro. A coroa marca a espera; a árvore e o presépio celebram a chegada. Antecipar tudo apaga a diferença entre os dois tempos.
Transformar a oração num momento longo. Três minutos que se repetem valem mais que quinze que acontecem uma vez.
Guardar a coroa no dia 24. Ela pode ficar até a Epifania. Muitas famílias trocam as quatro velas por uma vela branca no centro, acesa na noite de Natal, para marcar que a espera terminou. É costume, não norma, e é bonito.
O sinal e o que ele ensina
Uma coroa do Advento não muda nada por si. O que ela faz é obrigar a casa a marcar o tempo: durante quatro semanas, alguém acende uma vela e todos param por três minutos.
Num mês em que tudo empurra para a antecipação, para a lista de compras e para a ceia, esse pequeno gesto repetido diz outra coisa: ainda não é Natal, e a espera faz parte. As crianças aprendem isso pelo gesto muito antes de entenderem qualquer explicação.
No Sagrada Tradição, cada dia do Advento chega com a sua leitura, a sua cor e o santo celebrado, para acompanhar as quatro semanas sem precisar procurar nada.