Há um nome que é, ele mesmo, uma pergunta. Miguel, do hebraico Mika’el, quer dizer “quem como Deus?”. Não é um título de honra que lhe deram: é a confissão que ele fez. Diante da soberba que quis ocupar o lugar do Criador, o arcanjo não opôs força; opôs adoração. Toda a sua grandeza cabe nessa frase, e é dela que nasce a devoção que a tradição chama de Quaresma de São Miguel.
Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus anjos combatiam o dragão.Ap 12, 7
O que a Escritura diz dele
A Bíblia o nomeia quatro vezes, e em todas com o mesmo desenho. No livro de Daniel, é o príncipe que assiste o povo de Deus e se levanta na hora da provação (Dn 10, 13.21; 12, 1). Na carta de São Judas, disputa com o demônio o corpo de Moisés e, podendo julgar, não julga por conta própria: remete ao Senhor (Jd 9). No Apocalipse, combate o dragão e o precipita, na batalha que a Igreja lê como a queda dos anjos rebeldes (Ap 12, 7-9).
Repare no que a Escritura não diz. Não descreve um herói que vence pela própria força, nem um poder que rivalize com o de Deus. Miguel é criatura, e é justamente por sabê-lo que vence. A tradição o invoca como príncipe da milícia celeste, defensor da Igreja e aquele que apresenta as almas diante de Deus. A liturgia o celebra em 29 de setembro; desde a reforma do calendário, em 1969, a festa reúne os três arcanjos que a Escritura nomeia: Miguel, Gabriel e Rafael.
Do Monte Gargano ao Ocidente
O culto a São Miguel tem, no Ocidente, um lugar de origem: o Monte Gargano, na Apúlia, sul da Itália. A tradição narra que, no fim do século V, o arcanjo se manifestou ali ao bispo de Sipontum e pediu que a gruta fosse consagrada ao culto divino. Convém dizer o que se sabe e como se sabe: o relato mais antigo que temos, o Liber de apparitione sancti Michaelis in monte Gargano, é do século VIII, posterior aos acontecimentos que narra. A Igreja o guarda como memória venerável, não como crônica documentada.
O que a história registra sem dúvida é o efeito. O santuário rupestre, hoje Monte Sant’Angelo, tornou-se rota de peregrinos por toda a Europa medieval, e da mesma raiz nasceu, no século VIII, o Mont-Saint-Michel, na Normandia. Onde havia altura e perigo, o povo cristão punha o nome do arcanjo.
O Monte Alverne e a origem da devoção
Séculos depois, essa devoção encontrou São Francisco de Assis. Os antigos relatos franciscanos, entre eles a Legenda Maior de São Boaventura, contam que Francisco tinha por São Miguel uma reverência particular e se preparava para a sua festa com um tempo de jejum e oração, entre a Assunção de Nossa Senhora, em 15 de agosto, e o dia 29 de setembro. Retirava-se para a solidão do Monte Alverne, e os frades passaram a chamar aquele tempo de Quaresma de São Miguel.
Foi numa dessas quarentenas, em setembro de 1224, junto da festa da Exaltação da Santa Cruz, que Francisco recebeu no corpo as chagas do Crucificado. A coincidência ensina mais do que qualquer explicação: quem se recolhe para honrar o arcanjo termina diante da Cruz, que é onde o combate foi vencido.
Por que quarenta, se são quarenta e seis
De 15 de agosto a 29 de setembro correm quarenta e seis dias de calendário. O nome tradicional, porém, é quarentena, e não há contradição: os domingos não são dias de penitência. O dia do Senhor é da Ressurreição e da Santa Missa, e por isso fica fora da conta, como acontece na Quaresma maior, a da Páscoa, que também tem mais dias no calendário do que no nome. Descontados os domingos, sobram cerca de quarenta dias de prática, variando conforme o ano.
Essa aritmética diz algo do espírito da devoção. Ela não é uma corrida por marcas nem um contrato com Deus: é um tempo, com dias de esforço e dias de descanso, no ritmo que a Igreja sempre deu à penitência.
O que se faz nesses dias
Não há um método imposto, porque a Quaresma de São Miguel não é preceito da Igreja nem obrigação de ninguém: é um costume antigo, nascido no Alverne e transmitido pelos franciscanos. A tradição reúne três eixos, e quem quer rezá-la faz bem em guardá-los.
O primeiro é a oração: o terço ou uma dezena, e a Coroa Angélica, que honra os nove coros com uma saudação, um Pai-Nosso e três Ave-Marias cada, mais quatro Pai-Nossos em honra de São Miguel, São Gabriel, São Rafael e do Anjo da Guarda. Pio IX aprovou essa Coroa em 1851; em 1884, Leão XIII compôs a oração “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate”, rezada ao fim das Missas rezadas até a reforma de 1965 e recuperada por muitos fiéis desde então.
O segundo é a penitência: algum jejum ou privação concreta, escolhida com prudência e conforme o estado de cada um, oferecida por uma intenção.
O terceiro é a intercessão: rezar pelas almas, pela Igreja, pelos que estão em perigo. É o eixo que impede a devoção de virar coisa de foro íntimo apenas.
O combate que ela ensina
Talvez o maior serviço desta quarentena seja corrigir a nossa ideia de combate espiritual. Não se trata de imaginar batalhas nem de procurar o demônio em cada esquina. Trata-se de reaprender, num dia após o outro, a dar a Deus o primeiro lugar: no pensamento, nas paixões, nas provações, na hora da morte. Miguel não venceu por ser mais forte que o dragão; venceu por adorar Aquele diante de quem nenhuma criatura se compara. Quem repete a sua pergunta com verdade já está do lado certo.
Rezar a Quaresma de São Miguel neste ano
No Sagrada Tradição, esta quarentena está montada dia a dia. São quarenta e seis reflexões, uma para cada data, cada qual com o seu versículo, revisadas por um sacerdote. Cada dia se reza numa de duas vias: uma mais breve, com uma dezena do Terço, e outra plena, com o terço do dia inteiro; as duas terminam com as saudações aos nove coros angélicos e a oração de Leão XIII, rezadas conta a conta, com a tela acesa e com voz. No domingo, dia do Senhor, a reza é livre. Se um dia ficar para trás, dá para rezá-lo depois, e um lembrete diário, se você quiser, anuncia o tema de cada dia.
Tudo funciona sem internet e sem custo: a devoção é livre no aplicativo, do primeiro ao último dia. Ela começa em 15 de agosto, na Assunção de Nossa Senhora, e vai até 29 de setembro, na festa dos Santos Arcanjos. Se quiser fazer esta caminhada, baixe o aplicativo e comece com a gente.